Reflexão do deputado Aramis Brito

No Brasil foi criada uma estrutura em que a população é dependente e ao mesmo tempo servidora do estado. Pagamos impostos caros e não vemos o retorno nos serviços. A prova disso é a educação, segurança e saúde ruins. É um Brasil que favorece corporações. Um movimento fechado onde as pessoas não foram ensinadas, acostumadas e muito menos instruídas a perceberem que a estrutura precisa estar a serviço de todos e não somente de um grupo. Isso deixou o país esgarçado.
Temos que enxugar essa máquina, esse trem desgovernado, esse movimento. Se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma nova Grécia. Um país imenso, mas sem perspectiva de nenhuma transformação social onde se respeita realmente o cidadão.
Fala-se muito em mudança, mas fala-se nela opinando. Temos que passar da opinião para estudar as verdadeiras mudanças. Por exemplo, quando se fala em cortar gastos, não existe uma boa receptividade. E o que as corporações fazem? Elas pressionam os gestores através do poder de barganha e poder político, a desrespeitar as leis orçamentárias. Quando as corporações exigem aumentos, em momentos de crise, dizendo que tem que aumentar senão eles vão parar de trabalhar, eles não se importam se vão estourar a lei de responsabilidade fiscal. Essa lei foi criada para que houvesse teto para pagamento de salário da esfera pública, para que a outra porcentagem pudesse ser investida em benefícios para toda a sociedade. Então, quando as corporações começam a pressionar por aumento, inevitavelmente esse dinheiro vai prejudicar a ação maior para o bem público. Eles pensam nos interesses pessoais de um grupo em detrimento da ampla sociedade.
Hoje olhamos o arcabouço social e vemos uma folha de pagamento inchada e a sociedade aquém dos serviços que ela poderia prestar. Isso sem falar das questões do perdularismo, do gasto sem nenhuma preocupação de receita, dos grandes esquemas de corrupção e de favorecimento. Esse modelo não se sustenta mais porque agora está claro para todo mundo que as pessoas defendem as suas corporações e não defendem o bem público. Não defendem o respeito às leis que foram criadas e estimuladas por parlamentares que foram eleitos pela população e votaram várias leis para respeitar o direito de todo cidadão. Mas esse desrespeito às leis criadas força o gestor a descumpri-las. E o gestor que descumpre a lei, fica na mira da justiça e do próprio legislativo.
A partir daí, começa um jogo que não é um jogo democrático. É um jogo feito de forma paralela e que pressiona o gestor, (jogo da má política travestida de politica em defesa de direitos) que fica refém e acuado devido ao aspecto político. Decisões são tomadas com base em relações entre empresas e poder público. Por isso que a relação no nosso país hoje ficou maniqueísta: ou você é do lado bom, dos que aparecem na mídia como vítimas; ou você é do lado ruim, de quem a mídia chama de dominador (e essa visão maniqueísta é sempre o executivo sendo o lado ruim e o legislativo sendo quem sempre tem a resposta certa. Isso já está no imaginário coletivo.). Só que essa briga também favorece os dois lados, só não favorece a população.
A gente tem que quebrar essa visão e esse modelo de que isso é um jogo. Todo gestor que se apresenta como responsável dizendo que vai ter corte nos gastos, ele é visto como ditador. Temos que aprender a falar da política na perspectiva do que está acontecendo realmente na economia, no corte de gastos, do ajuste fiscal. A representação do parlamento tem que se tornar mais ampla porque a nossa democracia é representativa.
Apesar de todas as dificuldades em que encontramos nessa caminhada, nós conseguimos uma coisa boa, a independência de representatividade. O nosso compromisso é fazer com que o dinheiro arrecadado do contribuinte possa retornar a ele. Fiz isso na experiência que tive na Secretaria de Assistência Social, tanto que usamos as verbas vinculadas, coisa que ninguém usava, porque ninguém queria prestar conta. E conseguimos, no curto espaço de tempo que ficamos lá, usar aquela verba para criar o Centro POP, o abrigo para os moradores de rua, comprar automóveis para a secretaria. Usamos o recurso em favor da secretaria e lutando contra um outro gravíssimo problema que é a burocracia, pois a mesma impede também a grande transformação que a gente sabe que tem que ser feita.
Então, na verdade o Brasil está sendo passado a limpo. Existe uma força de resistência muito grande para que tudo continue a mesma coisa, só que sem punição. Nós somos do time que queremos mudança, porque nós somos um país imenso e maravilhoso. O momento do Brasil é de repensar tudo, remodelar. Caso contrário, seremos um país revoltado, de críticos, mas sem nenhuma proposta de mudança. O que suscita disso? A violência, briga em família, insegurança, desenvolvimento acelerado da marginalidade, prostituição, aumento de doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS e o descrédito com o poder constituído. Pois a pior descrença é aquela que você de longe e já não crê. E a tendência é viver em um desespero social onde a marca seja uma anarquia mais ou menos controlada, desrespeito parcial as leis, quebra-quebra, maldade, imposição, o submundo dominando, regras paralelas tomando conta.
É a hora da gente passar o país a limpo, com muita seriedade, e sem deixar de fazer contas. O Brasil hoje vive uma crise muito grande. O cúmulo do absurdo é você querer mudar fazendo a mesma coisa. E a gente precisa trazer a sociedade para o diálogo sem defesas corporativas. A mudança necessita ser profunda, e nessa mudança, todos perderão para o bem do Brasil. Cada um sabendo que para o Brasil ser transformado, todos nós vamos ter que perder. Perder dinheiro, tempo, garantia.

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