Homem estranho

Surgiu há 2018 anos atrás um homem estranho no mundo, esse homem começou a agir por livre e espontânea vontade, ele andava pelas cidades ouvindo as pessoas, ele curava, ensinava, pregava, sentava com os etiquetados pecadores, dormia na casa do homem mais mal falado e odiado, alimentava os famintos, comia e bebia com pessoas de péssima reputação, era sustentado por algumas mulheres que passaram a caminhar próximo dele, permitia que o caixa da sua missão fosse um ladrão, curava em dia santo, comia sem lavar as mãos, vivia contando histórias e parábolas num ambiente de hostilidade que dominava o seu mundo na época, repreendia religiosos arrogantes, presunçosos e amantes do dinheiro e do poder, ensinava a não reagir, a dar a outra face, a andar a segunda milha, a dar toda roupa a quem pedisse. Chamava o político famoso da ocasião de raposa, dizia que os religiosos eram filhos do diabo. Afirmava que as prostitutas, ladrões, publicanos e os marcados pecadores oprimidos pelo status quo da época herdariam o Reino dos Céus.
Esse estranho homem curava pessoas que eram proibidas de entrar no templo, uma multidão de doentes eram curados, libertos das suas doenças pelo poder desse estranho homem, livre, não institucionalizado, ele afirmava que da boca das crianças é que surgia o perfeito louvor a Deus, dava atenção aos fora da lei, renovava as esperanças dos marginalizados e por isso era acusado de perturbador da ordem. As instituições religiosas espalharam que Ele era possuído pelo demônio. Mas esse homem estranho não se intimidava. Acusava a religião de amarrar fardos pesados nos ombros dos outros o que eles mesmos não carregavam. Dizia com uma Graça e Autoridade nunca percebida:

– Vinde a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados que Eu vos aliviarei!

Esse homem estranho foi abandonado, acusado pela cúpula religiosa de ser agitador do povo e blasfemador. Mas o povo que Ele tanto amou, o deixou. Quando os milagres cessaram, os mais próximos também o deixaram e Ele ficou só. Ficou em silêncio vendo as articulações dos líderes religiosos com o poder político, vendo a euforia da população gritando: “crucifica-o, crucifica-o” ouvindo os sumos sacerdotes falarem com o governador em dúvida quanto a condenação: “se soltá-lo, você não será mais amigo de César! Nós vamos acabar com você diante do Imperador.” A única coisa que esse estranho homem disse foi:

– O meu Reino não é desse mundo.

Esse homem viu o prazer da religião unida dizer:
– Você não é dos nossos, não tem legitimidade, não é fariseu, saduceu, essênio, zelote e herodiano… você não é nada! Estamos unidos salvando o mundo das suas loucuras e estranhezas, você é perigoso tem que ser morto, sozinho não é páreo para nós, você terá a morte mais vergonhosa, dolorosa e humilhante, morrerá como maldito pregado no madeiro, crucificado.

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”

A Deus toda Glória.

Ilustração: Jesus Cristo diante de Pilatos – Munkácsy Mihály, séc. XVIII.

O sofrimento daquele que pertence a Deus

Vivemos num mundo que exalta a criatura, mundo de ídolos, de celebridades, mundo de ícones feitos pela mídia, mundo de modismos, mundo que etiquetou Deus como o “cara lá de cima”, mundo altamente sedutor, mundo de pessoas solitárias, mundo de pessoas iludidas, dominadas pelo ego, mundo que não leva Deus a sério, mundo de pessoas exibidas, raivosas, violentas, mundo onde as palavras apenas informam, mundo superficial, desonesto e escravo do seu próprio pecado. Quando você lê o livro de Jeremias salta aos olhos muitas coisas interessantes, o Rei Josias fez uma reforma destruindo os ídolos e devolvendo ao povo o culto a Deus, a reforma foi importante mas não completa, o povo gostou da reforma mas não mudou o coração. Os cultos ficaram cheios, a população usufruia de uma aparente paz entretanto as suas ações no dia a dia continuavam as mesmas. Deus, vendo isso, levanta Jeremias para pregar. Neste período havia um pastor em Jerusalém que era muito popular, seu nome era Pasur, pregava sempre o que o povo desejava ouvir, prosperidade, sucesso, paz e dentro desse contexto Jeremias surge dizendo: “Tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade, curam superficialmente a ferida do meu povo dizendo: Paz, paz, quando não há paz ( Jeremias 8:10-11). Jeremias pregava o que Deus mandava e não via nenhum resultado, pregava como profeta e via a mentira cada vez mais ganhar espaço. O pastor Pasur ensinava o povo a viver num culto agitado e superficial, ele não tocava na ferida, não mexia no pecado dos frequentadores, era um culto de exaltação as conquistas. Anunciava a paz e não havia paz. Quem busca paz em Deus aprende a viver pela verdade do evangelho, não por sentimentos, não pela opinião da maioria, não pela última pesquisa sobre moralidade, não pela indústria da propaganda, não para levar vantagem em tudo o que faz. Jeremias queria dizer ao povo a verdade, mas o povo não queria saber da verdade, o povo falava sobre Deus e Jeremias queria que o povo falasse com Deus e isso eles não queriam, o pecado do povo, a superficialidade dos sacerdotes, a indiferença dos ricos, chocava Jeremias. Mas nesse momento Jeremias se deixa levar pelas circunstâncias, se percebe inútil, sem valor, não vê sentido no que está fazendo e num impulso audacioso expressa sua raiva questionando Deus, duvidando de Deus: “…Serias tu para mim como um ilusório ribeiro, como águas que enganam?” Observe bem: ele chama Deus para o censurar, o que Jeremias está dizendo é: você me enganou, você não cumpriu as suas promessas, Jeremias estava solitário, irado, ferido e amedrontado; guarde isso: nossa ira pode ser a medida da nossa fé, o convertido fala com Deus, os incrédulos discutem entre si. Jeremias falou com Deus que educadamente ouviu e depois falou:” portanto assim diz o Senhor: Se tu te arrependeres, eu te farei voltar e estarás diante de mim” Deus diz a ele: Eu conheço e compreendo toda a sua dor, sofrimento, solidão e ira, mas não farei o seu jogo de vítima do mundo, porque isso você não é, não se agarre ao seu vitimismo, arrependa-te e eu te restaurarei. Jeremias foi honesto na sua oração, foi transparente, falou o que estava sentindo, a oração foi honesta e Deus mostrou a ele o caminho de volta. Deus disse: busque o arrependimento, não se deixe vencer por esses sentimentos eles são destrutivos, volte e eu o restaurarei, o colocarei de pé. Jeremias estava se sentindo desencorajado, suas palavras não foram suficientes para mudar o comportamento do povo, sua pregação foi em vão, tudo o que havia conseguido tinha sido perseguição e rejeição, talvez ele tenha pensado: acho que vou pregar o que eles gostam de ouvir e Deus diz não faça isso: Se te apartares o precioso do vil serás a minha boca, e eles se tornarão a ti, mas tu não passarás para o lado deles, em outras palavras: deixe que eles mudem de lado, não passe para o lado deles, VOCÊ É MEU.

O Mundo Pós-Verdade

O mundo Pós-verdade se motiva no auto-conhecimento, o indivíduo pós-verdade acha que sofre pela ignorância e não pelo pecado, ele busca técnicas para superar suas inadequações e não o arrependimento, ele acha que o conhecimento científico é infinitamente superior a fé, esse conceito tem encontrado espaço na Igreja. A vida pela fé, a piedade, a justiça, a generosidade, o compromisso com o próximo não são valorizados, não são vistos como princípios cristãos. Hoje é nítido ver uma teologia sem alma, sem vida, sem intimidade com Deus, sem conversão, isso tem feito um grande mal a nossa geração. Hoje se percebe um “arquivamento de Deus”, as soberbas abstrações teológicas sobre Ele tem levado os pseudoteólogos a construirem doutrinas que são insultos contra o Senhor. A vaidade intelectual construiu um deus domesticado, um deus na medida para satisfação dos desejos de uma geração que não aceita ser cristão do jeito de Deus, o resultado disso é o péssimo testemunho, a falta de amor, o sumiço da generosidade, a ausência de pessoas desprovidas de ganância, a negação do profetismo. O testemunho hoje são construções de templos suntuosos, poder financeiro, riqueza, viver somente juntos dos iguais, a pós-verdade está estabelecida na igreja, o conceito doutrinário não exalta Deus, exalta o homem, a criatura, a palavra dele vale mais do que a Bíblia, o antropocentrismo colocou o homem no centro e Deus agora só entra no final para dar a bênção apostólica. O absoluto perdeu a centralidade. A estrutura se tornou relativista e dentro desse relativismo a “verdade se torna aquilo que é vantajoso crer”, a igreja é conduzida pela onda vantajosa do momento, e ela vai sem perguntar se aquilo se assemelha com Deus, isso porque na cultura relativista vale usufruir e aproveitar sem se prender, sem ter compromisso, é conhecer sem conhecer. O que vale é apenas o prazer da conquista, a motivação momentânea tem mais valor do que a Verdade de Deus.
O Pai não é mais nosso, ele agora é meu e do meu jeito, essa desconsideração pelo que Deus fala é diabolicamente o canal motivador para pessoa continuar na igreja, a máxima hoje é: “o meu deus faz como eu quero senão vou embora”. Isso é antagônico a Deus, ora, a ação de Deus no campo da vontade é justamente tirar o ser humano da condição inata de desejar o pecado para condição de resistir o mal, essa restauração da capacidade de obedecer precisa alcançar o intelecto que é por si incapaz de aprender com a razão as verdades e conhecimentos de Deus, a consciência humana é arbitrária e insaciável, precisa ser contida!
A esperança é que aja um profundíssimo arrependimento e que a centelha do Divino alcance corações tomados pela vaidade, o pecado real mas ignorado afasta o ser humano de Deus, afasta um ser humano do outro e aí como resultado temos uma sociedade violenta, corrupta, manipuladora, gananciosa e sem temor. Oremos ao Senhor para que a sua misericórdia triunfe sobre o juízo nessa geração.
A Deus toda Glória!

Devocional

EZEQUIEL 16:49 ” Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas, mas nunca amparou o pobre e o necessitado”.

O nosso texto mostra que apesar da prosperidade vivida bem próximo deles havia uma pobreza imensa, ora, se eles eram muito ricos e os outros muito pobres a riqueza deles estava fundamentada na exploração, na opressão e isso aos olhos de Deus é abominável. Deus reprova a exploração, o que fez deles maus e pecadores diante do Senhor foi que eles nunca se preocuparam em amparar, cuidar, agir em prol daqueles que viviam tão próximos deles, Deus acabou com aquele lugar, destruiu tudo o que foi construído num só momento. O tipo de vida que eles levavam se tornou o testemunho para muitos cristãos atualmente, a fartura quando não é dividida torna-se maldição aos olhos de Deus. Ele vê isso como pecado. Para os abastados moradores de Sodoma os pobres eram para ser ignorados, tratados a distância, em nenhum momento eles se acharam responsáveis por eles, diz o texto:”…eles nunca ampararam o pobre e o necessitado” essa foi uma atitude egoísta, foi uma atitude de quem ignora a provisão de Deus e se acha dono de si mesmo. Eles pecaram porque fizeram a opção de não servir. Em Provérbios 14:31 está escrito: “O que oprime o pobre insulta aquele que o criou….” Os cristãos precisam ser conhecidos como a comunidade do serviço e não é uma autorização de Deus para criarmos uma subcultura evangélica escorada nas vantagens pessoais. A Igreja de Jesus não pode ser um clube dos iguais, esta Igreja tem um dono e esse dono cuidou, amou, salvou, alimentou, ouviu quem aparecia no seu caminho.

Noite dos Cristais

Hoje faz 80 anos que os judeus foram atacados pela população alemã e austríaca e pela tropa de choque nazista no que ficou conhecido como A Noite dos Cristais pela quantidade de vidro quebrado que se espalhou pelas ruas. Nessa terrível noite foram destruídas mais de 1.400 sinagogas, 7.500 lojas destruídas, casas, hospitais e escolas judaicas colocadas a baixo a marretadas e queimadas, 100 judeus mortos e 30 mil presos e enviados para os campos de concentração. Essa violência absurda e sem nenhum sentido foi construída no alto comando do Reich por Hitler e por seu ministro da propaganda Joseph Goebbels. A diabólica propaganda nazista fez a população passar a possuir um ódio absurdo dos judeus. Hitler, nos seus discursos, dizia que a culpa da derrota na Primeira Guerra Mundial havia sido do judeus e que eles não prejudicariam outra vez a nação, essa fala culpando os judeus pelo fracasso incendiou a nação suscitando o doentio nacionalismo nazista. A consciência do povo alemão foi possuída pela propaganda da máquina de mentira de Hitler e Goebbels. Goebbels foi o criador da máxima que uma mentira repetida constantemente se torna verdade. A propaganda única do nazismo produziu uma geração de pessoas tomadas pelo ódio aos diferentes, a grande massa embarcou numa proposta insana de dominar o mundo, eles acreditaram que eram melhores do que os outros, tornaram-se frios, calculistas, assassinos, saqueadores do bem alheio, concordando com uma cultura de guerra fundamentada numa destruição em massa. A Noite dos Cristais foi o início do projeto de extermínio dos judeus, 6 milhões de judeus foram mortos apenas porque eram judeus, foram mortos porque o insano líder não gostava deles e fez a nação não gostar também. 80 anos atrás isso aconteceu, vidas foram destruídas, muitos judeus deram fim a própria vida desesperados com o ódio sem nenhum motivo contra eles. Oremos para que a paz prevaleça entre nós, para que o equilíbrio e a moderação nos conduza como sociedade, para que o espírito democrático que aceita e respeita as diferenças tenha sempre a primazia entre nós.

Palavra pastoral

texto base:

1 João 3:16 ” Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós”

Quando Jesus esteve entre nós em carne Ele assumiu de livre e espontânea vontade uma postura de desvantagem, trocou a onisciência por uma mente que que precisou aprender a falar Aramaico, trocou onipresença por duas pernas, trocou a onipotência pela exposição pública de fraqueza e humilhação, em vez de controlar cem bilhões de galáxias ao mesmo tempo optou por andar nas ruas estreitas e empoeiradas de Nazaré, nos becos e vielas da Galiléia, no deserto da Judéia e no meio da multidão em Jerusalém.
Jesus renunciou o céu para nos reconciliar com Deus, o seu esvaziamento restabeleceu a ligação original entre Deus e as pessoas, fez tudo isso por amor e somente por amor. Esse maravilhoso e singular Jesus o nosso Salvador e Senhor é revelado na Bíblia como um Ser carismático, cativante, emotivo, humilde, simples, movido de compaixão e tomado de misericórdia. Os Evangelhos revelam as reações emocionais de Jesus: compaixão pelo leproso, alegria com as crianças, misericórdia com os pecadores, ira contra os insensíveis religiosos legalistas, aflição e pranto diante de uma cidade hostil, violenta, ingrata, afastada de Deus e doente emocionalmente, angústia no Getsêmani assumindo todo pecado do mundo, abandono na Cruz dando o grito: Deus meu, Deus meu porque me desamparaste?.
Jesus viveu a plenitude da sua humanidade. Pelo menos três vezes chorou diante dos seus discípulos, pediu ajuda, expôs a sua tristeza. Andar com Jesus é antes de mais nada aprender a ver a vida com os seus olhos, a vida Dele era uma ORAÇÃO, o cuidado Dele com as pessoas era uma ORAÇÃO, a atenção que Ele dava aos marginalizados e excluídos era uma ORAÇÃO. Ele atraia pelo amor, as suas ações em favor de todos eram feitas por pura vontade de abençoar, pura Graça, nada em troca, esse amor não foi bem recebido pelos religiosos da época, eles dominavam não pelo amor, dominavam pela força e pelo legalismo. Eles não aceitaram o amor, queriam apenas o poder!
Esse amor de Jesus precisa ser resgatado por nós, é ele e somente ele que dará sentido a nossa vida, não podemos esquecer que fomos salvos um por ato exclusivo do amor, nada além disso. Uma missionária que trabalhou na recuperação da França após a segunda guerra mundial dizia sempre:
– Não me pergunte como vai a minha vida de oração, observe como estão sendo tratados os necessitados que nós cuidamos, ali está a nossa vida de oração e o nosso amor.
A segunda parte do nosso versículo base para esse texto diz: “e devemos dar a nossa vida pelos irmãos”. Meu irmão e minha irmã isso é cristianismo na sua mais profunda essência, Jesus nos conduz a um caminho sem volta onde o amor sempre terá a primazia, quem desejar salvar a sua vida vai perder, quem perder a sua vida por amor de mim vai vencer, disse Jesus.